terça-feira, 4 de agosto de 2015

Entrevista exclusiva: Luis Moreira, pintura em tecido

Luis Moreira faz pinturas em tecidos há muito tempo. Nasceu no interior de São Paulo e quando criança já demonstrava interesse por artesanato, mas não possuía os materiais necessários para praticar. Isso não o desmotivou e Luis criou seus próprios pincéis com o que estava disponível naquela época: antenas de TV e crinas de cavalo.


Hoje, Luis é um artesão reconhecido, criou a técnica de pintura em tecido molhado, que usa água misturada a álcool para criar um efeito suave nas peças. Além de ser professor do Canal do Artesanato, ele também lançou vários DVDs e apostilas. Sua trajetória, no entanto, foi marcada por percalços e obstáculos: em alguns momentos, o artesão não conseguiu trabalhar com sua grande paixão.

Na entrevista abaixo, você conhecerá um pouco mais sobre a história de Luis e sua experiência de como fazer do artesanato a sua profissão.

- Luis, como foi a primeira pintura que você fez?
Para mim, a primeira foi uma maravilha, pois era muito criança, na faixa dos sete anos. Naquela época, utilizamos para a pintura parafusos, batatinhas e até a ponta do machucho (chuchu) como carimbos para obter florsinhas.

- De início, você pensou que poderia trabalhar com artesanato?
Não, nunca achei que sobreviveria de artesanato, principalmente por morar em uma cidade muito pequena e por meus pais sempre terem achado que eu deveria ter um diploma, uma profissão, como se artesanato (arte) não fosse uma profissão.

- Durante muitos anos, seu trabalho foi de químico. Você aproveitou essa experiência em algum aspecto de suas pinturas?
Claro, sem a química não conseguiria identificar os componentes da tinta e do material que trabalhava, nem saberia a reação que iria obter sobre o tecido.

- Como você conciliava a rotina de trabalho com a prática de artesanato?
Para mim, o artesanato era um passatempo, ainda mais no início, quando estava à procura de uma pintura diferenciada com uma técnica nova, algo que saciasse a minha sede por novidades. Eu sempre pintava à noite após o serviço e aos domingos.

- Quando foi sua primeira chance de dar aulas?
Assim que o plano econômico do país há algum tempo atrás arrasou com a maioria dos brasileiros, fui  à procura de serviço quando minha amiga (Leninha) abriu uma loja de artesanato na cidade vizinha (Capivari) e me convidou para dar aula. Achei interessante, mas não coloquei fé. Pintei algo, deixei na vitrine e depois de alguns dias os primeiros alunos surgiram e assim foi se expandindo.

- Como você desenvolveu a técnica de pintura em tecido molhado?
Bem, desenvolvi após ter terminado o curso de química, pois logo em seguida comecei a trabalhar na Usina de Açúcar de Rafard e à noite não estudava mais, então tinha um tempo. Foi aí que desenvolvi a técnica, mas ela não era tão aprimorada e desenvolvida como hoje (risos).

- Em determinado momento da sua vida, você teve a chance de trabalhar em uma fábrica de bebidas e ganhar melhor, mas foi nesta hora que escolheu viver totalmente do artesanato.
Sim, foi nesta hora que tive que pesar entre a razão e o coração. Para mim, aquela área da pintura era tudo que eu almejava na vida e por “N” razões nunca tinha corrido atrás. Ela veio até mim e, nesta época, eu já estava há dois anos dando aula e a notícia das aulas com tecido molhado já estavam se alastrando. Então, resolvi seguir um sonho, um caminho e não me arrependo, pois tudo que conquistei até hoje foi através do artesanato.

Avaliando com o olhar de hoje, o que você tinha naquela época que foi decisivo para que você conseguisse viver apenas do artesanato?
(Risos). Bem, naquela época eu não tinha mais nada a não ser a família e o apoio deles, tinha pouquíssimos alunos (avaliando hoje), mas para mim eles foram tudo, a expectativa de cada um após o término do trabalho, os agradecimentos, os depoimentos de pessoas depressivas que estavam bem indo às aulas, foi uma sensação assim: “hoje, estou indo dormir com a minha missão completa e plenamente realizado, pois sou privilegiado de estar trabalhando com um hobby”.

- O que você gostaria que as pessoas tirassem das suas aulas do Canal do Artesanato?
Gostaria que elas encontrassem ali uma forma de ganho, um aprimoramento, uma experiência de vida. A luta até este momento não foi fácil, foram muito obstáculos, mas mesmo assim eu recomeçaria tudo novamente, ainda mais se tivesse um apoio como esse do Canal do Artesanato, onde os professores dividem todos os seus conhecimentos e a prática vivida na realidade ao decorrer de vários anos de estrada.

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